A gente não engana um profissional bem treinado
Autodiagnóstico em neurodivergência: será que estudar sintomas atrapalha a avaliação profissional? Entenda por que você não engana quem é bem treinado.
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Bruno* só queria ser entendido
Bruno marcou um papo gratuito de trinta minutos para conversar sobre mentoria. Ele chegou com uma certeza: era neurodivergente. TDAH, autismo, altas habilidades — os três, ao mesmo tempo. Tinha lido muito sobre o assunto, assistido vídeos, feito as contas. Tudo batia.
Nos primeiros minutos, qualquer pessoa empática torce pelo Bruno. Ele fala de como passou a vida se sentindo deslocado, de como copiava padrões sociais para se enturmar, do custo altíssimo de performar normalidade. Descreve o alívio de finalmente encontrar narrativas que explicam o que sempre sentiu. Bruno está buscando acolhimento. E acolhimento é uma necessidade real, legítima, que qualquer pessoa que passou décadas sem nome para a própria experiência entende na hora.
O problema começa quando você pergunta pelos exemplos.
Quando a descrição não casa com o sintoma
Perguntei ao Bruno o que ele queria resolver. "Disfunção executiva", ele disse. Pedi exemplos.
Ele descreveu abrir mil possibilidades mentais em frações de segundo, pensar em soluções complexas para problemas simples, sentir angústia porque a quantidade de ideias é maior do que a capacidade de executar. Isso é pensamento arborizado — uma característica comum em superdotação e altas habilidades. A disfunção executiva é diferente: acontece quando você quer fazer, precisa fazer, chega a ter ansiedade porque sabe que precisa fazer, e ainda assim está paralisado. Sem conseguir começar.
Quando apontei a diferença, Bruno não demonstrou curiosidade. Disse "tenho isso aí também" e emendou outro sintoma, de outra condição, que também não batia com o que ele descrevia. A cada correção, ele empilhava mais um rótulo. A cada pergunta objetiva, ele respondia com mais um relato desconectado. O que Bruno fazia estava claro: em vez de tentar entender o que sentia, ele tentava me convencer de que o diagnóstico que já tinha fechado para si mesmo estava correto.
Como um bom profissional separa curiosidade de viés de confirmação
A diferença se revela em minutos.
Quem chega com curiosidade genuína faz perguntas. Quer entender por que determinado sintoma se parece com outra coisa, quer saber a distinção entre arborização e disfunção executiva, anota, reflete, às vezes discorda e volta com perguntas. A postura é de investigação.
Quem chega com viés de confirmação — o atalho mental que nos faz buscar, interpretar e lembrar apenas as informações que confirmam o que já acreditamos — só quer ouvir "sim". Cada pergunta vira ameaça. Cada correção vira invalidação. A conversa deixa de ser uma investigação conjunta e se transforma num tribunal onde o veredito já foi dado e o profissional está ali só para carimbar (Nickerson, 1998).
O perigo é que o viés de confirmação é silencioso. A pessoa não percebe que está selecionando só o que encaixa e descartando o que não encaixa. Para ela, a convicção é genuína. O problema é que convicção não é evidência.
Saber um pouco e achar que sabe tudo
Os psicólogos David Dunning e Justin Kruger demonstraram em 1999 um fenômeno que o senso comum já desconfiava: pessoas com baixo conhecimento em uma área tendem a superestimar sua competência justamente porque lhes falta a habilidade de reconhecer a própria ignorância (Kruger & Dunning, 1999).
O próprio David Dunning resumiu assim: "Não saber o tamanho da própria ignorância é parte da condição humana. O problema é que a gente vê isso nos outros e não vê em si mesmo. A primeira regra do clube Dunning-Kruger é que você não sabe que é membro do clube Dunning-Kruger" (em entrevista a Resnick, 2019).
Isso se aplica com força total à neurodivergência. Quem estudou um pouco acha que já sabe distinguir TDAH de AHSD, que já entendeu a diferença entre rigidez cognitiva e sensibilidade moral, que já fechou o próprio laudo. Quem estudou de verdade sabe que cada sintoma tem nuance, sobreposição, apresentações atípicas — e mantém a humildade de quem sabe que ainda tem muito a aprender.
Bruno dizia ter disfunção executiva, mas descrevia arborização. Dizia ter traços de autismo, mas descrevia sobrecarga sensorial genérica que podia vir de qualquer condição. Quando eu tentava mostrar a diferença, ele não perguntava "me explica melhor". Ele rebatia: "pode ser isso, mas pode ser aquilo também". Não era curiosidade. Era defesa de território.
O que acontece quando a certeza é confrontada
Aos trinta e cinco minutos de conversa — havíamos combinado trinta — eu disse mais uma vez ao Bruno que o diagnóstico formal seria o melhor caminho antes da mentoria. Que depois do laudo, se ele quisesse voltar, zero problema.
Bruno entendeu "não quero te atender". Disse que eu estava abandonando ele, que eu deveria saber como era doloroso ser invalidado, que eu não estava tendo com ele a compreensão que eu gostaria que tivessem comigo.
O que eu apontei, em momento algum, foi que ele não era neurodivergente. O que eu mostrei foi que o que ele narrava não batia com o que ele afirmava, que ele confundia conceitos, que ele precisava de letramento antes de fechar qualquer conclusão. Questionar não deslegitima a experiência de ninguém. A reação a esse questionamento é que revela a postura de quem está do outro lado.
A raiva de Bruno é compreensível. Depois de uma vida inteira sendo desacreditado, qualquer questionamento pode soar como mais uma porta batendo na cara. Mas compreender a origem da raiva é diferente de validar o comportamento que ela produz. Sentir é uma coisa. Usar o sentimento como arma para silenciar quem está tentando ajudar é outra completamente diferente.
O autodiagnóstico importa. E precisa de método.
Autodiagnóstico é válido. É frequentemente o primeiro passo para quem passou a vida inteira sem nome para o que sente. Uma revisão recente sobre autoidentificação de autismo em adultos mostra que o fenômeno é real, documentado e muitas vezes empurrado pela dificuldade de acesso à avaliação formal (Overton et al., 2024).
Invalidar pessoas que estudam de fato, que buscam apoio com honestidade, que chegam com perguntas em vez de certezas — por causa do comportamento questionável de alguns — seria um erro grave. Um bom profissional sabe a diferença. Neste caso eu soube, e eu nem sou profissional de saúde (ainda).
O que define se o autodiagnóstico é ponto de partida ou beco sem saída é a postura. Quem tem curiosidade sai de uma conversa como a que tive com Bruno com mais perguntas do que entrou. Quem tem viés de confirmação sai com raiva porque alguém ousou não carimbar o que ele já tinha decidido.
A primeira regra do clube Dunning-Kruger continua valendo. Olhe para dentro antes de fechar o laudo do lado de fora. Um profissional bem treinado vai saber a diferença entre o que você sente e o que você se convenceu de que sente. E se você chegar com curiosidade em vez de certeza, ele vai saber ver disso também.
*Nome fictício para proteção de privacidade
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Conhecer o EspectroFontes
Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1121–1134. https://doi.org/10.1037/0022-3514.77.6.1121
Nickerson, R. S. (1998). Confirmation bias: A ubiquitous phenomenon in many guises. Review of General Psychology, 2(2), 175–220. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.2.175
Overton, G. L., Marsà-Sambola, F., Martin, R., & Cavenagh, P. (2024). Understanding the self-identification of autism in adults: A scoping review. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, 11(4), 682–702. https://doi.org/10.1007/s40489-023-00361-x
Resnick, B. (2019, 26 de junho). An expert on human blind spots gives advice on how to think. Vox. https://www.vox.com/science-and-health/2019/1/31/18200497/dunning-kruger-effect-explained-trump
