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    Colega gourmet: por que neurodivergentes e neurotípicos usam definições incompatíveis de amizade

    Neurodivergentes usam uma definição de amizade completamente diferente da maioria. Entenda o double empathy problem e por que isso afeta a sua vida.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    14 de maio de 2026

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    Pneu furado, acostamento, 300 km de ninguém

    Tem um exercício que eu proponho para todo mundo que me fala que não sabe fazer amigos.

    Imagina: você está no acostamento. Pneu furado, 22h, a 300 km de casa, bateria do celular caindo. Você abre a lista de contatos. Tem 80 nomes lá. Vinte deles você chamaria de amigos próximos sem piscar.

    Rola a lista devagar. Pensa em cada um.

    Quem sairia de onde está, agora, para vir te ajudar?

    A maioria das pessoas fica quieta por um tempo. Depois conta nos dedos. E chega no mesmo lugar incômodo: ninguém. Ou um. No máximo dois.

    E aí vem a culpa de sempre. "Nunca aprendi a fazer amigos de verdade." "Alguma coisa em mim afasta as pessoas."

    Antes de acreditar nisso, vale checar se você e essas pessoas estão falando da mesma coisa quando dizem a palavra amigo.

    O colega gourmet e a grande confusão semântica de amizade

    Para a maioria das pessoas neurotípicas, amigo é uma categoria de contato social construída sobre convivência frequente e histórico positivo. É um conhecido com curadoria. Um parceiro de contexto.

    O Duba, meu parceiro (de vida e de trabalho, sim, somos aquele casal), chamou isso de colega gourmet, e eu gargalhei, depois fiquei séria e falei É ISSO.

    Mais elaborado que um conhecido casual, mais próximo que um colega de trabalho, mas fundamentalmente mantido pela frequência de contato. E com uma propriedade física muito específica: quando o contexto acaba, a amizade dissolve junto.

    Você muda de cidade? Vai embora. Termina a faculdade? Sumiu. Troca de emprego? Virou alguém que curte seu post de aniversário com aquela figurinha animada de parabéns.

    Sem briga. Sem motivo aparente. Simplesmente foi.

    Para uma pessoa neurotípica, isso é normal. É o sistema funcionando como foi projetado para funcionar. E sabe aquela pessoa com 50 amigos? Se você perguntar quantas delas percorreriam 300 km para trocar um pneu no acostamento às 22h, ela vai olhar pra você com cara de "mas pra que isso?" e responder: ninguém.

    Ela não vai ficar chocada. Pra ela, isso NUNCA fez parte do contrato de amizade.

    O que você, provavelmente, chama de amigo

    Se você é neurodivergente, autista, com TDAH ou os dois, amigo provavelmente pertence a uma categoria ontológica completamente diferente.

    Amigo é a pessoa que você chama quando tudo cai. É lealdade que não expira com o contexto. É o vínculo que sobrevive ao fim do cenário onde ele surgiu. É a pessoa que percorre os 300 km sem precisar pensar muito a respeito.

    Esse padrão é alto. É real. E é absolutamente incompatível com a definição neurotípica de amizade, que simplesmente não contempla esse nível de investimento como expectativa padrão das relações cotidianas.

    O resultado é uma vida inteira sendo medida pela régua errada.

    Você ouve desde a infância que tem dificuldade para se relacionar. Que precisa aprender a fazer amigos. Que algo em você afasta as pessoas. E vai acreditando nisso, porque as pessoas ao redor parecem ter uma facilidade enorme. Só que estão construindo um tipo completamente diferente de vínculo, com uma régua completamente diferente, que nunca foi a sua.

    Você estava sendo avaliado por uma prova para a qual você nem foi comunicado de qual diabos era a matéria para estudar.

    O que a ciência descobriu (e que muda o enquadramento inteiro)

    Em 2012, o pesquisador Damian Milton, ele mesmo autista, publicou um conceito que reorganizou anos de teoria sobre autismo e sociabilidade. Ele chamou de double empathy problem, o problema da dupla empatia.

    A ideia central é essa: as dificuldades de comunicação entre pessoas autistas e não autistas são bidirecionais. Durante décadas, o modelo médico posicionou o autista como o problema da equação. Alguém que não lê sinais sociais, que não empatiza, que precisa de correção. Milton apontou que pessoas não autistas também têm dificuldade real para entender, interpretar e se conectar com pessoas autistas. A falha está nos dois lados.

    Pesquisas experimentais confirmaram: quando autistas interagem entre si, a comunicação flui com significativamente mais facilidade do que em interações mistas. O atrito é uma propriedade da incompatibilidade entre os dois grupos.

    Traduzind para o cotidiano: a sensação de que as interações sociais exigem mais esforço do que deveriam, de que você precisa se traduzir pra ser compreendido, de que a comunicação funciona mas nunca exatamente como deveria, é tudo um problema de incompatibilidade de sistemas operacionais. Você roda Apple iOS e o resto da galera tá rodando Android. E você se pergunta por que os apps não instalam nem fudendo.

    O custo de uma vida inteira se medindo errado

    Revisão sistemática publicada no periódico Autism em 2022 (Grace et al.) identificou, em 34 estudos, que adultos autistas relatam solidão em proporções sistematicamente maiores do que adultos não autistas.

    Qualquer pessoa neurodivergente que já viveu esse ciclo vai reconhecer o dado sem precisar de estatística.

    Mas parte dessa solidão vem de uma comparação equivocada: a gente está buscando vínculos profundos, leais e duradouros e sendo avaliado pela ausência de vínculos casuais. Scoping reviews sobre amizade em adultos autistas mostram o mesmo padrão repetido: menos amigos em quantidade, busca consistente por maior qualidade, honestidade e profundidade.

    A lista menor é consequência do padrão mais alto. (Que, por sinal, a maioria das pessoas neurotípicas nunca vai conseguir honrar de volta. E é provavelmente por isso que você tem a sensação que você doa horrores para os seus amigos, mas eles não devolvem essa doação. Para eles, isso nunca foi uma questão.)

    O cansaço acumulado de uma vida inteira tentando se encaixar em um modelo que nunca foi o seu tem um preço. Você carrega a culpa de uma incompatibilidade que nunca foi pessoal.

    Onde amizades neurodivergentes de fato florescem

    Existe um caminho mais direto para conexões reais, e ele passa longe de "aprender a fazer amigos" no modelo neurotípico.

    Se você quer ter amigos seguindo o modelo mental de pessoas de alta intensidade de troca, o primeiro passo é achar pessoas que se disponham a isso. E nesse momento eu sempre recomendo grupos de afinidade.

    Comunidades construídas em torno de interesse genuíno, seja um fórum, um grupo, uma comunidade online, um coletivo em torno de qualquer coisa que você ame de verdade, criam naturalmente as condições para amizades neurodivergentes. Todo mundo está ali por escolha, por paixão. Sem protocolo de fachada. A profundidade emerge porque é esse o nível de conversa disponível.

    E quando duas pessoas neurodivergentes se encontram, o double empathy problem deixa de ser um obstáculo. A comunicação flui. O vínculo faz sentido. Como se você tivesse finalmente encontrado alguém com o mesmo sistema operacional.

    A questão sempre foi encontrar onde as relações do seu tipo são possíveis. Procurar no lugar errado é o que criou a sensação de fracasso, não qualquer deficiência sua.

    Antes de buscar mais amigos, checar a definição de amigo

    Antes de perguntar como fazer mais amigos, vale perguntar: amigos por qual definição?

    Se a sua definição é "a pessoa que percorre os 300 km", você provavelmente já sabe quem são na sua vida. Uma, duas, talvez três pessoas. Uma lista pequena pelo padrão neurotípico.

    Pelo padrão neurodivergente, o tamanho exato.

    Nomear a diferença entre esses dois tipos de vínculo não resolve a solidão de uma vez. Mas termina com uma culpa que nunca deveria ter sido sua.

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    Fontes

    Milton, D. (2012). On the ontological status of autism: the 'double empathy problem'. Disability & Society, 27(6), 883–887. https://doi.org/10.1080/09687599.2012.710008

    Mitchell, P., Sheppard, E., & Cassidy, S. (2021). Autism and the double empathy problem: Implications for development and mental health. British Journal of Developmental Psychology, 39(1), 1–18. https://doi.org/10.1111/bjdp.12350

    Milton, D., Gurbuz, E., & López, B. (2022). The 'double empathy problem': Ten years on. Autism, 26(8), 1901–1903. https://doi.org/10.1177/13623613221129123

    Grace, K., Remington, A., Lloyd-Evans, B., Davies, J., & Crane, L. (2022). Loneliness in autistic adults: A systematic review. Autism, 26(5), 1140–1155. https://doi.org/10.1177/13623613221077721

    Enkhbold, T. et al. (2025). Experiences of friendship among autistic adults: a scoping review. Frontiers in Psychiatry. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1523506