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    A colecionadora de manuais de gente: como a busca por entender pessoas era o meu autismo

    Buscar entender pessoas com astrologia, MBTI e Big Five pode ser sinal de autismo. Por que colecionar padrões é útil, mesmo sem ciência por trás.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    30 de maio de 2026

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    A menina que lia Shakespeare como quem lê manual de ferramenta

    Eu tinha 12 anos e estava lendo Hamlet. Não só pela beleza da coisa, embora "ser ou não ser" seja um baita gancho. Eu lia porque o Shakespeare parecia ter um arquivo secreto de como gente funciona. Ciúme, ambição, culpa, vingança, gente sorrindo por fora e maquinando por dentro. Estava tudo ali, catalogado, com legenda explicativa. Era a coisa mais próxima de um manual que eu tinha encontrado até então.

    Aos 12 eu também já tinha emendado na filosofia. Enquanto a turma estudava para as provas do colégio, eu queria entender por que as pessoas falavam uma coisa e faziam outra. Por que sorriam com raiva nos olhos. Por que existia um roteiro social que todo mundo parecia ter recebido ao entrar na sociedade, menos eu.

    Spoiler: o roteiro existia Eu é que não estava na lista de distribuição.

    Levei umas três décadas para descobrir o nome daquilo. O que parecia precocidade intelectual fofa de filme da Sessão da Tarde tinha outro nome bem mais incômodo: autismo. E aquela fome de manual, que me acompanha até hoje, tinha uma explicação muito mais interessante do que "menina estranha que gostava de livro difícil".

    O manual que nunca chegou pelo correio

    Tem uma habilidade que a maioria das pessoas usa o dia inteiro sem perceber que está usando. Ela foi cunhada pela Uta Firth (sim, aquela, a da treta) de teoria da mente: a capacidade de inferir, no automático, o que se passa na cabeça do outro. Você olha para alguém de braços cruzados perto da porta e o seu cérebro já concluiu sozinho "essa pessoa quer ir embora" antes mesmo de você formular a frase. É rápido, é invisível, é gratuito.

    Para muita gente autista, quando estamos lendo as pessoas neurotípicas, esse processo roda na manivela. A leitura de intenção que entre neurotípicos acontece sozinha, no autista acontece por dedução consciente, item por item, como quem monta um móvel sem as figurinhas do passo a passo. Dá para chegar no mesmo resultado. Só que dá trabalho, atrasa, e às vezes a estante sai com três parafusos sobrando.

    Temple Grandin, engenheira e provavelmente a autista mais famosa do mundo, resumiu isso melhor do que qualquer artigo acadêmico. Ela disse se sentir "como uma antropóloga em Marte" nas interações sociais (a frase ficou tão boa que o Oliver Sacks roubou para título de livro). Antropóloga porque estava sempre observando uma cultura de fora, tomando nota, tentando decifrar regras que os nativos seguiam sem nem saber que eram regras.

    Era exatamente o que eu fazia com Hamlet. E com a minha família. E com cada colega de turma que parecia ter nascido com o roteiro tatuado na mão.

    A teoria do cérebro que não suporta o caos

    O Simon Baron-Cohen, pesquisador de Cambridge, tem uma teoria que explica a outra metade da história. Ele propõe que o cérebro autista costuma vir com um impulso muito forte de sistematizar: pegar o caos e transformar em regra, em padrão, em "se isso, então aquilo". É o mesmo motor que faz uma criança autista decorar o nome de todos os dinossauros em ordem de período geológico, ou saber a tabela de horários de uma linha de trem inteira de cabeça.

    Agora junte as duas pontas. Você tem um cérebro que adora sistema e detesta imprevisibilidade. E você o coloca diante do sistema mais imprevisível, mais cheio de exceção e mais mal documentado que existe no universo conhecido: a sociedade neurotípica.

    Gente não vem com manual. Gente muda de ideia. Gente diz "tô bem" chorando. Gente faz cara feia e quer carinho. É o pior produto já lançado em termos de documentação técnica. Eu de verdade quero meu dinheiro de volta.

    Então eu fiz o que qualquer pessoa com fome de padrão faria diante de um sistema sem manual: comecei a escrever o meu próprio. Na marra.

    Minha turnê mundial de tipologias

    Se a ciência não me dava o manual de gente, eu ia procurar onde tivesse. E, desde criança, eu procurei em todo lugar.

    Comecei pela astrologia. Aprendi signo, ascendente, casa, lua. De repente eu tinha doze gavetinhas para guardar as pessoas e prever, mais ou menos, como cada uma reagiria. Depois veio meia dúzia de religiões, estudo sobre comportamento humano, sobre linguagem corporal (amo "O Corpo Fala" até hoje), literalmente estudo de antropologia na faculdade, e lá para os idos de 2015 veio o MBTI, e foi amor à primeira vista. Eu fui aloka do MBTI por anos. Decorei as dezesseis combinações de quatro letrinhas, as funções cognitivas, li vários pedaços aleatórios dos escritos do Jung (que inclusive precisa que alguém ressuscite ele para tomar uns tapas na cara - ele é o pesadelo de qualquer autista como leitura), identificava tipo de gente em festa (as poucas que eu ia), conseguia mapear um time inteiro de trabalho só de observar quem falava primeiro na reunião. Mais tarde caiu na minha mão o Big Five, e foi como trocar a bicicleta pelo carro.

    Eu não colecionava figurinha. Eu colecionava sistemas de classificação de gente. Era o meu Pokémon: gotta categorize 'em all.

    E aqui vem um dos meus segredos sórdidos: o MBTI continua, até hoje, sendo uma biblioteca de padrões que eu uso. Quando preciso entender rápido por que alguém recarrega energia sozinho enquanto a outra pessoa murcha sem plateia, ter um vocabulário pronto para isso me poupa um tempo precioso de improviso.

    O detalhe inconveniente: quase nada disso é ciência

    Vou estragar a festa, porque é o meu trabalho estragar festas com fontes e citações.

    A astrologia não tem respaldo empírico nenhum. Zero. O céu é lindo, Mercúrio retrógrado rende meme excelente, mas segundo a ciência, o horóscopo prevê o seu comportamento tão bem quanto eu prevejo a Mega-Sena.

    Importante: se o ponto aqui é crença, eu sou a favor de todo mundo acreditar no que quiser. Eu só não gosto quando a gente começa a hostilizar as pessoas porque elas acreditam em uma coisa diferente de você, ok?

    O MBTI, meu grande amor, também não passa no teste. Uma análise publicada na Social and Personality Psychology Compass mostra que a teoria por trás do MBTI carece de testabilidade, tem contradições internas e baixa estabilidade: a pessoa refaz o questionário poucas semanas depois e sai com um tipo diferente, como se tivesse trocado de personalidade no caminho da padaria. Ele divide o mundo em pares de tudo ou nada quando a vida real vive nos meios-termos.

    O Big Five é a exceção honrosa da minha estante. Esse foi construído de baixo para cima, a partir de dados, e é o modelo de personalidade com mais validação científica que temos hoje, reconhecido por boa parte da psicologia. Ainda assim, mesmo o Big Five descreve tendências. Ele não decreta destino.

    E sabe qual é a parte mais engraçada? Em algum momento da adolescência eu já sabia que o horóscopo não estava adivinhando nada. Continuei usando assim mesmo. Porque eu nunca quis aquilo para prever o futuro. Eu queria aquilo para ter andaime.

    Por que uma biblioteca furada ainda é uma biblioteca útil

    O valor daquelas tipologias todas estava no vocabulário e na estrutura que elas me davam, muito mais do que em qualquer pretensão de verdade científica.

    Ter nome para um padrão é metade da batalha quando o seu cérebro processa gente no modo manual. "Essa pessoa recarrega ficando sozinha, aquela precisa de gente para recarregar as energias" é uma simplificação grosseira, mas me deu um gancho para antecipar comportamento sem ter que reconstruir o ser humano inteiro do zero na minha cabeça a cada conversa. A biblioteca de padrões baixa a carga cognitiva. É a diferença entre improvisar cada interação na hora, suando frio, e ter alguns templates de partida no bolso.

    Isso conversa com algo que a pesquisa documenta bem sobre mulheres autistas em especial: a gente aprende repertório social de forma explícita, decorada, ensaiada. A literatura chama de camuflagem, esse conjunto de estratégias conscientes de imitar o comportamento esperado para parecer parte do grupo. É um dos motivos pelos quais tantas de nós só recebemos o diagnóstico na vida adulta. A gente ficou tão boa em parecer que estava no automático que ninguém percebeu o trabalho braçal por baixo.

    As tipologias eram parte do meu kit de camuflagem. Eram as fichas técnicas que eu consultava antes de entrar em campo.

    A linha onde o mapa vira sentença

    Agora o aviso que precisa vir junto, porque biblioteca de padrão tem um efeito colateral perigoso.

    Padrão é mapa. Mapa serve para você se localizar, não para você definir o território. O problema começa no instante em que você para de usar a categoria para entender alguém e passa a usar a categoria para condenar alguém. "Ah, ele é de escorpião, nem vou tentar." "Ela é tipo J, vai ser controladora." Aí você parou de ler gente e começou a arquivar gente numa gaveta para nunca mais abrir.

    A pessoa de escorpião que você descartou na festa talvez fosse a única ali que ia te entender. Mas você fechou a ficha antes de ler o conteúdo.

    A biblioteca é uma ferramenta de hipótese, jamais de veredicto. Ela serve para você formular um palpite gentil sobre como alguém pode funcionar, e depois testar esse palpite na realidade, ajustando conforme a pessoa real te mostra quem é. No segundo em que o rótulo vira prisão, ele deixou de te ajudar a se conectar e virou só mais um jeito sofisticado de julgar.

    Na prática, para quem se reconheceu até aqui

    Se você leu tudo isso pensando "meu Deus, eu também tenho dezesseis abas abertas sobre tipos de personalidade", talvez essa fome de manual diga algo sobre como o seu cérebro funciona. Não para fechar diagnóstico, isso é trabalho de profissional, mas para olhar para você mesmo com mais carinho e menos vergonha.

    Buscar entender as pessoas com método é engenhosidade pura, o oposto de defeito de fábrica. É um cérebro que, diante de um sistema sem documentação, decidiu escrever a própria documentação para conseguir conviver. Tem mérito nisso. Tem até elegância.

    O que muda o jogo é aprender a usar essa biblioteca a favor da conexão, e não contra ela.


    Como alimentar a sua biblioteca de padrões sem virar juiz de gente

    Se a sua cabeça já funciona colecionando padrões, a questão não é parar. É curar o acervo. Aqui vai um passo a passo prático para manter a biblioteca útil e saudável.

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