Tirei nota 9 e tive uma crise
Tenho autismo, TDAH e superdotação. Me esforcei mais que todo mundo, recebi menos apoio que os demais e tirei 9. O efeito da falta de suporte em adultos neurodivergentes.
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O dia em que eu ouvi o áudio
É um áudio de WhatsApp: Uma voz masculina, entusiasmada: "Seu trabalho foi excepcional. Muito bom mesmo. Precisa ser publicado, um dos melhores trabalhos de todo o curso!"
A pessoa que me mostrou estava radiante.
E o trabalho dela era muito bom mesmo. Estava foda.
E aí eu comecei a chorar e não parava mais.
Deixa eu voltar um pouco.
Eu tenho autismo, TDAH e superdotação. Essa combinação (mais o que a vida foi acrescentando em forma de trauma) me fez uma pessoa que não topa ser pega de surpresa. Eu preparo tudo com muita antecedência. Reviso antes de revisar a terceira revisão. Chego antes de todo mundo e ainda fico nervosa como se estivesse atrasada.
O que parece perfeccionismo é hipervigilância constante. Uma forma de controle que custa caro, mas que virou meu procedimento operacional padrão.
E... eu estava fazendo uma pós-graduação. Escolhi o tema, mergulhei fundo, entreguei com bastante antecedência. E reparei que o orientador ficava sem responder minhas mensagens. Cobrei, insisti e ele começou a responder. Depois do primeiro ghosting, expliquei que sou autista e preciso de previsibilidade. Ele melhorou por 2 semanas e depois voltou a sumir. Nesse bate-e-volta fui ajustando o texto. Perguntei se estava bom. Se precisava de mais detalhe. Se a versão que eu tinha era suficiente.
Tinha uma parte específica que me preocupava. Perguntei sobre ela. Ele disse que estava ok. Eu acreditei nele.
Mandei mais algumas mensagens, e ele não respondeu.
Eu empatizei. Sei que quem orienta nesse tipo de curso provavelmente recebe pouco ou nada por isso. Ele tem outras obrigações. Pensei: vai ver que está mesmo bom. Deixei pra lá.
E chegou o momento da defesa.
Eu pareço segura quando falo em público. Dou palestras, me apresento, explico coisas complexas com desenvoltura. Por fora, tá tudo lindo. Por dentro, sou uma gelatina trêmula. Quem me conhece bem consegue ouvir o nervosismo mesmo quando pareço no controle.
Era um conteúdo que eu dominava completamente. Qualquer pergunta que fizessem, eu saberia responder. A preparação toda estava lá, em cada detalhe. Eu tinha ensaiado. Tinha mapeado possíveis perguntas. Tinha me preparado para possíveis buracos.
No meio da defesa, um dos avaliadores pediu que eu explicasse melhor o contexto inicial. Expliquei. E então ele disse: "era exatamente isso que faltou no seu trabalho."
O ódio que eu fiquei.
Porque eu tinha feito com antecedência. Tinha tempo de ajustar tudo que fosse necessário. E fui mal direcionada em algo que eu claramente saberia resolver se alguém tivesse me dito antes.
Tirei 9. A nota importou? Sim, mas não pelo 9 em si. Mas mal sabia eu que eu ainda descobriria muito mais coisa para processar depois.
Eu estava acompanhando o processo de outras pessoas do mesmo curso. Elas deixaram pra preparar tudo bem mais em cima da hora. Os orientadores delas trabalharam de um jeito completamente diferente: presentes, orientando de fato, com retorno real e consistente. Elas tiraram 10.
Torço por essas pessoas de verdade. Sem ressentimento nenhum.
Mas aí veio o áudio.
Uma delas me mostrou a mensagem de voz do orientador dela, cheio de elogios. "Seu trabalho foi excepcional. Muito bom mesmo." E o trabalho dela estava foda, de verdade.
Só que o meu trabalho também podia ter ficado assim.
Com as orientações certas, com o direcionamento que eu precisava, meu trabalho também teria sido excepcional. O talento estava lá. O esforço estava lá. O que faltou foi o suporte.
Meu incômodo real é saber que, com um pouquinho mais de suporte do tipo que algumas pessoas recebem como padrão, a entrega poderia ter sido completamente diferente. A mesma qualidade. Alcançada por caminhos diferentes. E a mim foi negado esse caminho.
Por que isso importa na sua vida
Trouxe isso aqui porque é exatamente assim que eu me sinto em relação à neurodivergência.
A gente se esforça no nível épico. E isso não é uma exclusividade da minha história. Pesquisas com estudantes neurodivergentes no ensino superior documentam esse padrão com clareza: elas assumem uma responsabilidade pessoal muito maior para compensar lacunas institucionais, tornam-se as próprias advogadas das suas necessidades sem que ninguém peça, e mesmo assim têm taxas de evasão mais altas que a média. A evasão, quando acontece, vem do esgotamento. O esforço épico sem suporte consome mais do que é possível repor.
O mascaramento, essa tentativa constante de parecer mais próxima do que o ambiente espera, mantém o cérebro em estado de hipermonitoramento. Toda interação é processada em dobro: o que estou fazendo, como parece de fora, o que a outra pessoa está pensando, o que eu deveria estar respondendo, o que ficou errado na última vez. A pesquisa sobre camuflagem social em pessoas autistas já documenta esse custo: exaustão cognitiva crônica que, sem alívio, vira burnout.
E no fim das contas, o que me atravessa é saber que um pouquinho de suporte, o tipo que algumas pessoas recebem como padrão, mudaria completamente a equação.
Eu preciso de orientação, de retorno real, de alguém que entenda que uma pergunta a mais da parte deles pode mudar completamente o resultado da minha parte. Isso é um suporte razoável. Deveria ser padrão. Para muita gente funciona assim. Para mim, frequentemente, não funciona.
E aí ficam as perguntas que não saem da minha cabeça:
Quantas pessoas neurodivergentes estão tirando 9 quando podiam ter tirado 10, não por falta de capacidade, mas por falta de suporte?
Quantas deixaram de entregar o seu melhor porque ninguém percebeu que precisavam de um pouquinho mais de direcionamento?
Quantas chegaram à defesa já esgotadas de tanto compensar sozinhas?
Quantas abandonaram antes de chegar lá?
Eu torço por quem tirou 10. De verdade.
Mas me permito querer ter recebido o mesmo amparo.
E se você leu até aqui e pensou "é exatamente assim que eu me sinto", saiba que a sua percepção é real. O sistema falha. Você faz mais do que deveria para compensar algo que deveria estar lá. (E não é culpa sua.)
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Saiba maisFontes
Raymaker, D. M., Teo, A. R., Nicolaidis, C., et al. (2020). "Having All of Your Internal Resources Exhausted Beyond Measure and Being Left with No Clean-Up Crew": Defining Autistic Burnout. Autism in Adulthood, 2(2), 132-143. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7313636/
McDowall, A., & Kiseleva, M. (2024). A rapid review of supports for neurodivergent students in higher education: Implications for research and practice. Neurodiversity: A Journal of Research, Practice and Policy. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/27546330241291769
