Hipermobilidade articular e neurodivergência: quando o corpo também é parte do diagnóstico
Hipermobilidade articular é muito mais comum em pessoas com TDAH e autismo. Saiba por que essa conexão existe e o que fazer com ela.
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A pessoa de borracha do grupo
Você era aquela criança. A que conseguia dobrar os dedos para trás até tocar o dorso da mão, enquanto adultos faziam cara de nojo misturado com fascínio. A que mostrava o truque em festinhas. A que ouvia "você parece não ter osso" como se fosse elogio.
O que ninguém disse é que "parece não ter osso" não é para ser vantagem. Isso é sinal de uma condição, e ela aparece com frequência incomum nos mesmos laudos onde consta TDAH (e eu suspeito autismo também).
Hipermobilidade articular generalizada é a condição em que as articulações se movem além da amplitude considerada normal. Quando isolada, pode ser só aquele truque de festa. Quando acompanhada de sintomas, pode ser sinal de condições como a Síndrome de Ehlers-Danlos hipermóvel (hEDS) ou o Transtorno do Espectro de Hipermobilidade (HSD). E, dependendo do caso, vem com um pacote: dor crônica, fadiga, tontura ao levantar, ansiedade e uma lista de queixas que a medicina convencional frequentemente arquiva em "psicossomático" ou "você precisa se exercitar mais" ou "perder peso". (Essa última é uma das frases mais recorrentes da história para explicar o que ninguém consegue explicar ainda.)
O que a pesquisa encontrou (e que provavelmente ninguém te contou)
Em 2022, uma equipe de pesquisadores britânicos publicou no Frontiers in Psychiatry um dado meio chocante: pessoas neurodivergentes têm o dobro de probabilidade de apresentar hipermobilidade articular em comparação com pessoas neurotípicas. O estudo, liderado por Jenny Csecs e Jessica Eccles, também mostrou que a hipermobilidade atua como mediadora para sintomas de disfunção autonômica e dor nessa população.
Um estudo de corte transversal com adultos calculou razões de chance de 3,1x para a associação entre autismo e hipermobilidade generalizada, subindo para 4,9x quando a hipermobilidade era sintomática. Uma pesquisa anterior apontou que pessoas com hEDS teriam 7,4 vezes mais chance de ter autismo e 5,6 vezes mais chance de ter TDAH.
Olha de novo: 7,4 vezes.
São estudos peer-reviewed, com grupos de controle, publicados em periódicos indexados. O padrão existe. E padrão pede explicação.
Por que isso acontece
A teoria mais aceita até agora envolve o tecido conjuntivo, que é o material responsável por manter seu corpo colado. Articulações, pele, vasos sanguíneos, paredes de órgãos: tudo depende do tecido conjuntivo para manter forma e firmeza.
Em pessoas com hipermobilidade, esse tecido é mais frouxo do que o esperado. O que os pesquisadores documentaram é que essa frouxidão provavelmente não fica só nas articulações. Ela afeta o sistema nervoso autônomo (o responsável por funções involuntárias como batimento cardíaco, pressão sanguínea, digestão e temperatura) e a propriocepção, que é a capacidade do cérebro de saber onde o corpo está no espaço sem precisar olhar.
Daí saem explicações para algumas coisas que pessoas neurodivergentes relatam com frequência:
A tontura ao levantar. Pode ser POTS (Síndrome de Taquicardia Postural Ortostática), uma forma de disautonomia muito mais comum em pessoas com hipermobilidade e neurodivergência do que a medicina geral costuma reconhecer.
O trombão na porta que você conhece de cor. Pode ser propriocepção. O sistema que mapeia o corpo no espaço funciona de forma diferente, e TDAH nessa conta não ajuda.
A dor que aparece sem trauma visível. Articulações hipermóveis são articulações instáveis. O corpo compensa com tensão muscular crônica para manter tudo no lugar. O resultado é dor que médicos frequentemente chamam de fibromialgia, de estresse ou, em momento memorável, de "você provavelmente está usando sapato errado."
A fadiga que não passa depois de dormir. Em pessoas com hEDS, o corpo gasta energia regulando funções que deveriam ser automáticas. Isso, somado ao custo de mascaramento e ao processamento sensorial intensificado, cria um cansaço que o descanso sozinho não consegue zerar.
O que fazer com essa informação
Levar para um médico que conheça a conexão. Reumatologistas e especialistas em tecido conjuntivo são os mais indicados para avaliar hipermobilidade. No Brasil, o acesso ainda é limitado e a maioria dos profissionais não recebeu treinamento específico sobre HSD e hEDS, mas há profissionais atentos a essa sobreposição.
Conhecer o Escore de Beighton. Esse é o critério clínico mais usado para triagem de hipermobilidade: 9 pontos testados em cotovelos, joelhos, polegar, dedos mínimos e tronco. Pontuação 5 ou mais é considerada indicativa de hipermobilidade generalizada em adultos. Não substitui avaliação médica, mas pode orientar a conversa e economizar algumas rodadas de "seus exames estão normais". Tem toda uma treta sobre como este teste inclusive identifica menos gente do que deveria, mas é melhor que nada.
Investigar fisicamente, não só psicologicamente. Se você tem TDAH, autismo ou altas habilidades e vive com dor crônica, fadiga persistente ou tontura frequente sem explicação clara, essas queixas merecem investigação além do que já está sendo tratado. Seu corpo sinalizando não é catastrofismo. É dado.
Que alguém te diga isso hoje, se ninguém disse antes. ;)
próximo passo
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70+ estratégias para lidar com as dificuldades da neurodivergência
Saiba maisFontes
Csecs, J. L. L., Iodice, V., Rae, C. L., Brooke, A., Simmons, R., Quadt, L., Savage, G. K., Dowell, N. G., Prowse, F., Themelis, K., Mathias, C. J., Critchley, H. D., & Eccles, J. A. (2022). Joint hypermobility links neurodivergence to dysautonomia and pain. Frontiers in Psychiatry, 12, 786916. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2021.786916
The Relationship Between Generalised Joint Hypermobility and Autism Spectrum Disorder in Adults: A Large, Cross-Sectional, Case Control Comparison. Frontiers in Psychiatry, 12, 803334. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2021.803334
Cederlöf, M., Lichtenstein, P., Larsson, H., Boman, M., Rück, C., Landén, M., & Mataix-Cols, D. (2016). Nationwide population-based cohort study of psychiatric disorders in individuals with Ehlers–Danlos syndrome or hypermobility syndrome and their siblings. BMC Psychiatry, 16, 207. https://doi.org/10.1186/s12888-016-0922-6 — RR para autismo: 7,4 (IC 95%: 5,2–10,7); RR para TDAH: 5,6 (IC 95%: 4,2–7,4).
