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    Menopausa e neurodivergência: coisas que parecem segredo de estado

    Entrar na menopausa já é difícil. Quando você é neurodivergente então, é um mar de sintomas que você não sabe de onde vem.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    19 de agosto de 2026

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    Eu passei meses achando que tinha ficado burra.

    Não é figura de linguagem. A minha memória sempre foi a coisa que eu mais confiei em mim, o única coisa em que eu confiava por questões de sanidade mental, e de repente eu estava esquecendo eventos que tinham acontecido e eu tinha certeza. Perdendo o fio no meio da própria frase. Abrindo uma aba pra fazer uma coisa e ficando parada olhando pra ela. Se eu não tivesse construído uma prótese inteira de memória externa pra trabalhar, eu tava f*dida.

    E olha que eu já tinha um repertório inteiro de explicação pronta pra isso.

    O problema de morar num prédio onde todo alarme já apita

    Eu tenho autismo, TDAH e superdotação. Tenho alergia (MCAS). Tenho endometriose. Tenho hipermobilidade articular, tenho disfunção executiva de fábrica, tenho uma constelação de coisa que ninguém consegue listar de cabeça sem consultar o próprio prontuário.

    Agora pensa no que a perimenopausa faz: esquecimento, névoa mental, sono que desanda, irritabilidade, dor no corpo, cansaço que não passa com descanso.

    Leu a lista? Eu já tinha todos, por outros motivos.

    Então quando os meus hormônios começaram a despencar, eu não desconfiei de nada. Eu debitei tudo na conta que já estava aberta. Tava esquecida? Disfunção executiva, sempre foi. Tava dormindo mal? Sempre dormi mal. Nasci insone, vivi insone, vou morrer insone. O corpo doendo? Amiga, eu sou hipermóvel, meu corpo dói desde que eu me entendo por gente.

    Isso se chama ofuscamento diagnóstico. O termo é usado principalmente para descrever o erro do profissional de saúde, quando o médico olha para o diagnóstico que já está no prontuário e atribui a ele o sintoma novo, em vez de investigar. Uma análise de conceito publicada em 2023 no Journal of Clinical Nursing mapeia exatamente isso: sintoma físico sendo lido como manifestação da condição psicológica preexistente. A parte que me deixou pistola é que eu fiz sozinha, comigo mesma, de graça, sem nem cobrar consulta.

    A ginecologista que quase teve um treco

    O que me tirou desse loop foi troca de médica.

    Eu tinha feito cirurgia de endometriose em 2020. MAS, como eu tenho trombofilia, não podia tomar 99% dos anticoncepcionais, LOGO, continuei menstruando.

    (Se você não sabe, endometriose é uma das piores doenças para ter e o recomendado é não menstruar nunca mais, se possível.)

    Fui viver a vida, porque quando você é neurodivergente e tem um corpo complicado você desenvolve uma tolerância assustadora a coisa esquisita: você já ouviu tanta vez que é frescura, que é ansiedade, que é exagero seu, que em algum momento você para de levar as coisas ao médico de novo, e passa a só conviver com elas, o que funciona muito bem até o dia em que uma delas meio que era importante.

    A ginecologista nova quase teve um treco com o meu caso. Botou DIU, pediu o painel hormonal inteiro, e aí a conversa mudou de assunto.

    O exame que me deu razão, e depois me deu razão de novo pelo motivo contrário

    Meu FSH tinha estourado o teto. Mas assim, a ponto da médica falar que era erro do laboratório. FSH é o hormônio que o cérebro manda pro ovário. Se o ovário pára de responder, o cérebro fica que nem a gente apertando botão do elevador que não vem, sabe? Ele manda mais e mais e mais, então um FSH alto é o póbi do cérebro aos gritos porque do outro lado ninguém atende. A faixa de referência do meu laboratório vai até 8,08. Em dezembro de 2025 o meu deu 26,76. O estradiol, que devia estar em algum lugar razoável, tinha caído pra 19, o menor de toda a minha série. O organismo tentando arrancar uma ovulação na marra pra salvar o próprio negócio.

    Achei que tinha acabado ali. Acabou? Não acabou.

    Seis meses depois, em junho de 2026, eu repeti. FSH: 4,06. Dentro da faixa. Estradiol: 206, o mais alto que eu já tinha medido. Se eu tivesse feito o exame nesse dia, sem nenhum outro contexto, qualquer pessoa olharia o papel e diria que estava tudo bem comigo.

    mai/25dez/25abr/26jun/26
    FSH (ref. 3,03 a 8,08)8,026,768,04,06
    Estradiol10019143206
    Progesterona9,55<0,54,46<0,50

    Desvendando o mistério: na perimenopausa, um exame hormonal normal não descarta nada. A palavra "peri" está ali justamente porque é a fase da oscilação, não da queda. É um elevador com defeito, não uma ladeira. Você pode pegar ele no andar de cima num dia e no subsolo três meses depois, e a foto de um andar não conta a jornada do elevador bêbado que é a sua vida hormonal a partir de agora.

    O custo de não saber disso é alto. É a mulher que faz um exame, dá normal, ouve que não é nada, e vai embora com a mesma névoa na cabeça e agora com a certeza extra de que está inventando. De novo. Como sempre.

    O que a pesquisa tem, e é menos do que você imagina

    Tem muita gente vendendo certeza sobre esse assunto. O tamanho real da evidência é o seguinte.

    Do lado do TDAH existe um número bom. Em 2025, na European Psychiatry, um estudo da coorte islandesa SAGA comparou 5.392 mulheres entre 35 e 55 anos, sendo 535 com TDAH. As mulheres com TDAH pontuaram bem mais alto na escala de sintomas de menopausa (18,0 contra 13,0), e a proporção das que relataram sintomas severos foi de 54,2% contra 30,1%. Traduzindo: quase o dobro. A maior diferença de todas apareceu nos sintomas somáticos, os do corpo: 30,4% contra 13,9%. Eu teria apostado nos psicológicos e teria perdido.

    Agora as letras miúdas:o estudo é transversal, ou seja, é uma fotografia de um momento e os próprios autores dizem que dali não sai relação de causa. O TDAH foi autorrelatado, não confirmado em consultório, ainda que validado por escala. E a amostra é islandesa, não brasileira. No nosso país o lugar onde a gente deveria encontrar esses dados tem uma linda bola de feno rolando no horizonte.

    Do lado do autismo, a evidência é de outra natureza. O estudo mais citado se chama "When my autism broke", de Rachel Moseley e colegas, publicado na revista Autism em 2020. As participantes descrevem dificuldades autistas piorando na menopausa a ponto de não conseguirem mais mascarar, e relatam meltdown, ansiedade e ideação suicida. É um material que dá arrepio de tão preciso.

    Foi o número impressionante de sete pessoas.

    Num grupo focal online. Aquilo é depoimento, e depoimento não vira estatística: usar o estudo pra dizer "pesquisas mostram que as autistas" seria desonesto. Um trabalho maior, de 2025, no Journal of Health Psychology, entrevistou 29 pessoas (15 autistas e 14 não autistas) e achou uma imagem que eu não consigo tirar da cabeça: as autistas descreviam construir uma máscara de menopausa por cima da máscara autista. Ainda assim, 29 pessoas.

    E sobre altas habilidades e menopausa? Nada. Zero estudo. Sobre neurodivergência e menopausa no Brasil, com dado brasileiro? Também nada. Inclusive, se você achar um por favor me conta, ok?

    O soco: a psiquiatria estava tratando o que era da endocrinologia

    Essa é a parte que ainda me deixa bolada.

    Eu vinha há meses dizendo pra minha psiquiatra que o meu remédio pra dormir tinha parado de funcionar direito. Ele funcionava de forma aleatória. Uma noite ia, duas noites mais ou menos, aí outra eu virava acordada. A gente ficou girando em cima do arranjo noturno, testando, ajustando, trocando. E nada de resolver.

    SPOILER: Não era o remédio.

    Quem resolveu foram o endocrinologista e a ginecologista, e não foi nem de propósito. Eles me colocaram numa reposição hormonal por causa da perimenopausa, com testosterona pela manhã (que não conta, porque é um gel que todo dia eu esqueço de aplicar) e progesterona à noite. A progesterona entrou porque a minha tinha sumido. Dormir não estava no plano de ninguém.

    Eu voltei a dormir.

    Tem mecanismo conhecido: a progesterona micronizada é metabolizada em alopregnanolona, que é moduladora positiva do receptor GABA-A, o mesmo sistema em que atuam os sedativos clássicos. Ou seja, ela é sedativa por via própria. Eu passei meses caçando o problema no armário da psiquiatria enquanto ele morava no ovário.

    #melevadeus

    E agora a parte chata, que não é negociável. Isso não é receita. Progesterona não é remédio de dormir, não foi prescrita pra isso, e o que aconteceu comigo aconteceu dentro de uma reposição hormonal indicada por dois médicos que olharam os meus exames. Não existe um único ensaio clínico testando reposição hormonal para sintoma de TDAH ou de autismo. Nenhum. Se você sair daqui e pedir progesterona pro seu médico como indutor de sono, eu vou descobrir onde você mora e vou esconder sua comida de conforto.

    E não, eu não fiquei curada. Ainda tem semana em que eu me sinto uma bosta. Mas veja bem, agora pelo menos um pouco menos bosta. :)

    O que levar pro consultório

    O que dá pra fazer com tudo isso, na prática:

    • Anota a data. Sintoma sem data vira "faz um tempo", e "faz um tempo" não ajuda nenhum médico a pensar.
    • Se você tem mais de 35 anos e apareceu sintoma novo, o reflexo vai ser debitar na conta que já está aberta. Não debite. Foi o que eu fiz, e me custou meses.
    • Painel hormonal completo, não FSH avulso.
    • E se ele voltar normal, a pergunta seguinte é em quanto tempo repetir.
    • Interocepção difícil é comum em pessoa autista, e quem não confia no próprio sinal corporal precisa de papel. Eu usei a Alma (minha assistente de IA) para criar todo um relatório interativo que eu levo para todos os médicos, organizado por data e por exame, e foi SÓ POR ISSO que a gente pegou o problema.
    • Ofuscamento diagnóstico é o termo técnico, e ele é conhecido no mundo inteiro. Se o profissional atribuir tudo à sua neurodivergência sem investigar, diga o termo em voz alta.
    • A diretriz conjunta da FEBRASGO, da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da SOBRAC, de 2024, recomenda terapia hormonal para mulher sintomática sem contraindicação e trata a janela de início como decisiva. Vale ler antes da consulta.

    Nada disso substitui médico, e por favor não feche diagnóstico lendo blog.

    Voltando pro prédio

    O meu prédio apita inteiro. Sempre apitou. E é justamente por isso que um alarme novo pode tocar por meses ali dentro sem que ninguém, inclusive eu, vire a cabeça.

    Eu não tinha ficado burra. O meu estrogênio tinha ido embora e voltado, duas vezes, enquanto eu procurava defeito em mim.

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    Fontes

    O estudo islandês, de onde saem todos os percentuais de TDAH deste texto: Fernandes, M. et al. Perimenopausal symptoms in women with and without ADHD: a population-based cohort study. European Psychiatry, 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12538516/

    Os valores de exame citados são meus, de laudos entre maio de 2025 e junho de 2026.