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    Os 8 sentidos e a neurodivergência: como seu cérebro processa (ou não) o mundo ao redor

    Entenda o que são os 8 sentidos humanos e como autismo, TDAH e superdotação afetam o processamento sensorial de formas distintas.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    27 de maio de 2026

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    Às 15h, com as mãos tremendo, você diz que está cansada

    Você está na reunião das 16h. A concentração desabou. Você está facilmente irritável, as palavras dos outros chegam com um leve atraso e as mãos tremem um pouco. Alguém pergunta se você está bem. "Estou cansada", você responde.

    Você não comeu nada desde as 9h da manhã.

    Para uma parte das pessoas neurodivergentes, em especial as autistas, isso não é descuido nem esquecimento. O cérebro simplesmente não enviou o sinal que devia ter enviado. Ou enviou, e o sinal chegou sem tradução legível.

    Isso tem nome, endereço e telefone: é uma alteração no oitavo sentido, a interocepção. E é só um exemplo do que acontece quando o processamento sensorial funciona de forma atípica, o que em cérebros neurodivergentes ocorre com frequência e impacto clínico real.

    Sobre os 8 sentidos: o que a escola simplificou demais e como isso atrapalha o rolê

    Aprendemos quando crianças que os seres humanos têm cinco sentidos. É uma simplificação útil para crianças de seis anos. Para qualquer análise funcional do sistema nervoso, ela está incompleta.

    O nosso sistema nervoso processa pelo menos oito fluxos sensoriais distintos.

    Os cinco clássicos:

    • Visão — processamento de luz, cor, movimento e contraste
    • Audição — frequência, volume e localização do som
    • Olfato — compostos químicos no ar
    • Paladar — sabor, textura oral e temperatura dos alimentos
    • Tato — pressão, temperatura e dor na superfície da pele

    Os três frequentemente esquecidos:

    • Propriocepção — o sentido de posição e movimento do próprio corpo no espaço, gerado pelos receptores em músculos e articulações. É o que permite tocar o nariz com os olhos fechados ou digitar sem olhar para as teclas. Eu sou uma bosta nesse. Uma desgraça. Eu me bato em tudo e estou sempre roxa.

    • Vestibular — o processamento de equilíbrio e movimento, localizado no ouvido interno. Regula a orientação espacial, a coordenação e a estabilidade postural. Novamente, uma bosta. É tão ruim que eu tenho um enjôo de movimento que me acompanha desde bebê. Na infância eu acordava, me arrumava, saía de casa, andava de ônibus por 10 minutos, saltava na frente do colégio e vomitava. Todo dia.

    • Interocepção — a percepção dos estados internos do corpo: fome, sede, dor interna, temperatura corporal, frequência cardíaca, bexiga, e também os correlatos físicos das emoções. Minha relação com fome é: ou estou sem fome, ou estou com ódio, ou estou indo pra enxaqueca/desmaio. Eu não tenho um momento onde eu sinto aquele saudável "hmmm que fominha". Vale para banheiro também.

    Esses três últimos são menos visíveis, mais difíceis de nomear e, justamente por isso, mais propensos a serem ignorados quando apresentam diferenças. Em cérebros neurodivergentes, essas diferenças têm peso clínico que raramente aparece nas consultas médicas ou nas salas de escola.

    Como neurodivergência e sentidos se encontram

    Desde 2013, o DSM-5 incluiu diferenças no processamento sensorial como critério diagnóstico formal para o Transtorno do Espectro Autista, integrado ao núcleo da condição. Estudos de larga escala indicam que entre 74% e 92% das pessoas autistas apresentam alguma forma de processamento sensorial atípico (Kirby et al., 2022; Ausderau et al., 2014).

    No TDAH, a prevalência também é alta: uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (2025) confirmou que adolescentes com TDAH pontuam de forma significativamente diferente da população geral em todas as quatro dimensões do Adolescent Sensory Profile, cobrindo desde busca sensorial até evitação.

    Em pessoas com Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD), o psiquiatra polonês Kazimierz Dabrowski identificou o que chamou de "sobreexcitabilidades" (do polonês nadpobudliwość, literalmente "superestimulabilidade"), sendo a sensorial uma das cinco categorias. É uma intensidade aumentada de resposta a estímulos, descrita como maior sensibilidade dos neurônios receptores. Vale registrar que as sobreexcitabilidades de Dabrowski são um framework teórico com respaldo observacional clínico, mas com menor base em neurociência experimental do que os dados sobre TEA e TDAH. São uma lente útil, e devem ser lidas como tal.

    Cada perfil tem sua lógica sensorial própria. Entender essa lógica é o que permite parar de interpretar comportamentos sensoriais como birra, preguiça, frescura ou falta de controle emocional.

    TEA: quando os sentidos chegam sem volume regulado

    A experiência sensorial no autismo combina alta variabilidade individual com padrões consistentes a nível de grupo. A mesma pessoa pode ser hipersensível a certos estímulos e completamente não-sensível a outros.

    Propriocepção e sistema vestibular são áreas de vulnerabilidade específica no espectro. Uma distinção importante que a pesquisa recente evidenciou (Levin & Hanneton, 2025; Publio et al., 2024): o problema costuma estar na integração, não na captação do sinal em si. A pessoa sente onde está o corpo, mas o sistema nervoso tem dificuldade em usar essa informação junto com as dos outros sentidos para produzir movimento coordenado. É como um GPS que recebe o sinal de satélite mas não consegue aplicar a rota no mapa.

    Na prática: esbarrar em objetos com frequência, dificuldade com atividades motoras finas, busca por pressão física (abraços fortes, roupas compressivas, cobertores pesados) ou movimentos repetitivos de balanço. Esses comportamentos são o sistema nervoso buscando input proprioceptivo para se calibrar.

    Visão, audição, olfato e tato são os mais discutidos no contexto do autismo, e com razão. Hipersensibilidade a luz fluorescente, intolerância a ruído de fundo imprevisível, dificuldade com texturas específicas de alimentos, hipersensibilidade ao toque leve mas tolerância ao toque firme: todas têm documentação robusta na literatura.

    A interocepção, porém, merece uma seção própria.

    Por que a interocepção é tão problemática no autismo

    Interocepção é o sentido que traduz o que está acontecendo dentro do corpo em informação utilizável. Fome, sede, dor, coração acelerado, bexiga, cansaço físico. Tudo isso chega ao cérebro como sinal interoceptivo antes de se tornar consciência.

    Esse processamento passa principalmente pelo córtex insular, uma região que atua como central de tradução: recebe os sinais do corpo e os conecta com estados emocionais e decisões. Em pessoas autistas, essa central opera de forma atípica, com alterações nas substâncias químicas que regulam a atividade neuronal na região (Bird & Cook, 2013), o que compromete essa tradução.

    O resultado prático é que os sinais chegam distorcidos, atrasados, ou simplesmente não chegam com a clareza suficiente para gerar consciência. Daí o nome técnico do fenômeno associado: alexitimia, que vem do grego e significa literalmente "sem palavras para os sentimentos". Uma pessoa com alexitimia pode sentir que algo está errado fisicamente, mas não consegue identificar o quê, nomear, nem comunicar. O sinal chegou; a tradução deu tela azul.

    Estudos estimam que cerca de 50% das pessoas autistas atendem aos critérios para alexitimia, contra aproximadamente 10% da população geral. Há debate na literatura sobre o que vem antes: se é o autismo que dificulta a interocepção, ou se é a alexitimia que interfere nessa relação (Garfinkel et al., 2016). O ponto prático permanece o mesmo: as duas ocorrem juntas com alta frequência, e os efeitos no dia a dia são concretos.

    TDAH: o filtro que deixa tudo passar

    No TDAH, a origem da atipicidade sensorial é diferente. A desregulação dopaminérgica, central na fisiopatologia da condição, afeta os mecanismos de "gating" sensorial: o processo pelo qual o sistema nervoso filtra e hierarquiza informações antes que cheguem à nossa consciência.

    Com o filtro operando abaixo do esperado, estímulos que seriam descartados continuam presentes no processamento consciente. O resultado é um ambiente sensorial mais simultâneo e menos organizado por relevância. Aquela sensação de tudo ao mesmo tempo o tempo todo.

    A audição costuma ser particularmente afetada. Hipersensibilidade auditiva está documentada em adultos com TDAH, com dificuldade específica em separar fontes sonoras em ambientes com múltiplos estímulos concorrentes. Em reuniões, restaurantes, salas de aula abertas: o som da cadeira arrastando ocupa o mesmo espaço de percepção que a voz da pessoa ao lado.

    E se você está pensando "ué, mas não é assim com todo mundo?", bem vinda ao chá revelação: para os neurotípicos existe uma experiência mágica: o cérebro filtra os barulhos que são importantes para o contexto onde a pessoa está inserida e ignoraaaaaaa o resto. Surreal, não?

    O tato também apresenta padrões atípicos com frequência. Responsividade tátil aumentada está associada a maior índice de ansiedade em crianças com TDAH (Engel-Yeger & Ziv-On, 2011), com impacto em vestuário, contato físico e tolerância a certas texturas.

    O aspecto menos discutido é a hipossensibilidade: a busca ativa por estimulação intensa, seja sonora, cinética ou gustativa. Esse padrão coexiste com a hipersensibilidade no mesmo indivíduo, dependendo do sentido e do estado de ativação. É frequentemente interpretado como impulsividade, quando tem fundamento sensorial específico.

    Medicação estimulante como metilfenidato demonstrou normalizar algumas hipersensibilidades sensoriais em parte dos pacientes, o que indica que o mecanismo dopaminérgico tem papel direto na regulação sensorial, e não só na atenção (Ghanizadeh, 2011).

    AH/SD: o volume fixado no máximo

    Pessoas com altas habilidades tendem a experimentar estímulos sensoriais com intensidade aumentada. Na sobreexcitabilidade sensorial de Dabrowski, isso se manifesta como prazer intenso com certas texturas, sons e experiências estéticas, e também como sobrecarga diante de estímulos que a maioria tolera sem dificuldade. Com o Duba por exemplo é poluição visual. Ele chega a passar mal, dependendo de quão poluído o ambiente seja.

    Na sobreexcitabilidade psicomotora, há correspondência observada com os sistemas proprioceptivo e vestibular: necessidade de movimento, inquietação física e alta responsividade cinética. Isso gera confusão diagnóstica com TDAH em avaliações que não aprofundam a diferenciação entre perfis.

    Uma distinção funcional relevante: em AH/SD sem TDAH, a intensidade sensorial tende a ser seletiva e contextualizada. A sobrecarga existe, mas costuma estar associada a ambientes específicos ou a fadiga cognitiva. Em TDAH, a regulação do filtro sensorial é menos consistente e mais dependente do estado de estimulação e do momento emocional.

    O que é possível fazer na prática

    Para interocepção comprometida (especialmente TEA)

    O Interoception Curriculum, desenvolvido por Kelly Mahler (2017), é um programa estruturado com respaldo em terapia ocupacional que treina a consciência corporal de forma progressiva. Fora do contexto clínico formal, algumas estratégias de suporte incluem:

    • Alarmes regulares configurados como lembretes de "check-in corporal" (fome, sede, cansaço, dor)
    • Uso de mapas visuais do corpo para nomear sensações com apoio de imagem
    • Prática de avaliação corporal guiada: atenção progressiva a partes do corpo, sem julgamento, aumentando o vocabulário interoceptivo
    • Registro de padrões ao longo de semanas: em que hora do dia costuma surgir fome? Quais sensações físicas precedem estados emocionais intensos?

    Para sobrecarga sensorial (TEA e TDAH)

    • Dieta sensorial personalizada com terapeuta ocupacional com formação em integração sensorial Ayres
    • Adaptações ambientais: iluminação LED aquecida em vez de fluorescente branca, fones de atenuação de ruído, roupas sem costura interna
    • Planejamento intencional de recuperação sensorial após ambientes de alta estimulação
    • Identificação de janelas de baixa sobrecarga no dia para alocar tarefas que exigem concentração sustentada

    Para busca sensorial (TDAH e AH/SD)

    • Input proprioceptivo intencional antes de atividades que exigem estabilidade atencional: exercício, caminhada, atividade física moderada
    • Objetos para figdeting com textura ou resistência para regulação durante atividades sedentárias
    • Estímulos de fundo como ruído branco ou pink noise para reduzir a saliência de sons distratores em ambientes de trabalho

    Sentidos que o sistema nunca considerou

    O modelo de cinco sentidos chegou até nós como verdade consolidada. Passou pela escola, pela medicina popular e pelo senso comum sem revisão. Para uma parte considerável da população neurodivergente, essa lacuna tem custo real: comportamentos sensoriais interpretados como desvio de conduta, necessidades físicas ignoradas por profissionais de saúde, e uma experiência cotidiana de não conseguir explicar por que o mundo simplesmente é demais, ou de menos, ou das duas coisas ao mesmo tempo.

    Nomear os oito sentidos e entender suas diferenças entre perfis não resolve o processamento atípico. Mas cria vocabulário onde havia só frustração, e vocabulário é o começo de qualquer acesso a suporte.


    próximo passo

    Guia de Mecanismos de Suporte

    70+ estratégias para lidar com as dificuldades da neurodivergência

    Saiba mais

    Fontes

    Kirby, A. V., Boyd, B. A., Williams, K. L., Faldowski, R. A., & Baranek, G. T. (2022). Sensory features in autism: Findings from a large population-based surveillance system. Autism Research, 15(5), 908–918. https://doi.org/10.1002/aur.2670

    Garfinkel, S. N., Tiley, C., O'Keeffe, S., Harrison, N. A., Seth, A. K., & Critchley, H. D. (2016). Discrepancies between dimensions of interoception in autism: Implications for emotion and anxiety. Biological Psychology, 114, 117–126. https://doi.org/10.1016/j.biopsycho.2015.12.003

    Frontiers in Psychology — Alexithymia, not autism, is associated with impaired interoception (2016). https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2016.01103/full

    Bird, G., & Cook, R. (2013). Mixed emotions: The contribution of alexithymia to the emotional symptoms of autism. Translational Psychiatry, 3, e285. https://doi.org/10.1038/tp.2013.61

    Levin, M. F., & Hanneton, S. (2025). Sensory–movement underpinnings of lifelong neurodivergence: getting a grip on autism. Frontiers in Integrative Neuroscience. https://doi.org/10.3389/fnint.2025.1489322

    Publio, G. C., et al. (2024). Proprioception, emotion and social responsiveness in children with developmental disorders. PMC. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11202221/

    Sensory Processing in Individuals With ADHD Compared With Control Populations: A Systematic Review and Meta-analysis. (2025). Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. https://www.jaacap.org/article/S0890-8567(25)00209-6/fulltext

    Engel-Yeger, B., & Ziv-On, D. (2011). The relationship between sensory processing difficulties and participation in daily life activities of children with different types of ADHD. Research in Developmental Disabilities, 32(3), 1073–1080. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5452451/

    Ghanizadeh, A. (2011). Sensory processing problems in children with ADHD, a systematic review. Psychiatry Investigation, 8(2), 89–94. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3149116/

    Mahler, K. (2017). Interoception: The Eighth Sensory System. AAPC Publishing.

    Dabrowski, K. (1972). Psychoneurosis Is Not an Illness. Gryf Publications.

    Ausderau, K. K., et al. (2014). Sensory subtypes in children with autism spectrum disorder: Latent profile transition analysis using a national survey of sensory features. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 55(8), 935–944. https://doi.org/10.1111/jcpp.12219