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    Quando sentir demais tem nome

    Sensibilidade moral em superdotados: por que adultos com AHSD sentem o peso do mundo com uma intensidade que a ciência já documentou e tem nome.

    Marco DubovskiMarco Dubovski
    10 de maio de 2026

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    Aquela reunião que só você levou pra casa

    Era uma reunião de trabalho qualquer. O chefe apresentou uma solução como se fosse dele. Você sabia que era de outra pessoa. A pessoa estava na segunda fileira, olhando pro notebook, quieta. Ninguém falou nada.

    A reunião terminou, as pessoas foram pro café, o assunto foi embora. Só que pra você não foi. Você saiu dali com aquilo entalado no peito. Ficou pensando na pessoa da segunda fileira. Na injustiça pequena, banal, invisível pra quase todo mundo. Exceto pra você.

    Aquilo ficou o resto do dia. Entrou no carro com você. Chegou em casa com você. Às onze da noite, ainda estava lá.

    Se esse tipo de cena é familiar, existe uma boa chance de que você esteja lidando com algo que tem nome. E ter nome muda bastante a relação que você estabelece com essa parte de você que nunca consegue simplesmente deixar passar.

    Dabrowski entendeu isso antes de todo mundo

    O psiquiatra polonês Kazimierz Dabrowski desenvolveu, a partir dos anos 1960, uma teoria chamada Desintegração Positiva. Em algum ponto dessa teoria ele descreveu o que chamou de sobreexcitabilidades.

    A ideia central: pessoas com alto potencial de desenvolvimento percebem o mundo com uma intensidade que vai além do padrão. A resposta emocional é mais forte, mais rápida, mais difícil de filtrar. A conexão entre o que acontece lá fora e o que se sente por dentro é mais direta do que a maioria das pessoas consegue imaginar.

    Dabrowski identificou cinco áreas de sobreexcitabilidade (psicomotora, sensorial, imaginativa, intelectual e emocional), e é na emocional que mora o que vou falar aqui nesse artigo.

    A sobreexcitabilidade emocional carrega uma característica específica: a sensibilidade moral. A capacidade de perceber desvios éticos, injustiças e inconsistências de valor com uma nitidez que vai além do raciocínio consciente. Quase uma recepção involuntária: como ter uma frequência de rádio sintonizada num canal que a maioria das pessoas nem sabe que existe.

    E isso é documentado.

    Linda Kreger Silverman pesquisou sensibilidade moral em superdotados desde os anos 1990. Em trabalho posterior com Annemarie Roeper, após décadas de observação clínica com crianças e adultos superdotados, as duas sintetizaram a conclusão: "se queremos líderes morais, precisamos compreender e nutrir o mundo interior dos superdotados, esse ambiente interno rico e profundo de onde a sensibilidade moral emerge." (tradução livre de Roeper & Silverman, Giftedness and Moral Promise, 2009)

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