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    Dois cachorros na mesma coleira: como é viver com TDAH e autismo juntos

    TDAH e autismo coexistem em até 50% dos casos. Entenda por que o TDAH mascara o autismo, e o que muda quando o diagnóstico vem em camadas.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    26 de maio de 2026

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    Quando o husky para de uivar, o shih-tzu mau-humorado aparece

    Uma mentorada minha me mandou um áudio hoje. Diagnosticada com TDAH e superdotação, começou a medicar há pouco tempo, está ajustando a dose. No meio da fala, ela soltou a pergunta que eu já ouvi de tanta mulher neurodivergente que perdi a conta: "Andressa, eu estou mais quieta, mais séria, mais sozinha. Será que sempre fui assim? Será que eu também tenho autismo?"

    A resposta curta é: provavelmente sim, sempre foi assim, e provavelmente vale investigar.

    A resposta longa vem abaixo.

    O dado que pouco profissional brasileiro repassa

    O DSM-5 mudou em 2013. Foi naquela edição que a Associação Psiquiátrica Americana passou a permitir, oficialmente, o diagnóstico simultâneo de Transtorno do Espectro Autista e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Antes disso, os manuais tratavam as duas condições como excludentes: ou era uma, ou era a outra. Mais de uma década depois, ainda tem profissional clínico no Brasil insistindo nessa lógica binária. Tem mentorada minha que ouviu de psiquiatra "se você tem TDAH, você não tem autismo" em 2024.

    A literatura científica é bem mais clara que o consultório médio. Revisões recentes apontam que entre 30% e 50% das pessoas autistas também atendem aos critérios diagnósticos de TDAH, com alguns estudos chegando a estimativas mais altas dependendo da amostra (Antshel & Russo, 2019; Hours, Recasens & Baleyte, 2022). É uma das co-ocorrências mais frequentes documentadas em neurodivergência, e ainda é uma das mais subdiagnosticadas, especialmente em mulheres adultas.

    A pergunta certa não é "será que ela tem TDAH OU autismo?". A pergunta certa é "se ela tem um, vale investigar o outro?".

    Por que o TDAH grita mais alto

    Tem uma coisa que aparece com frequência na minha prática de mentoria e que eu não vejo discutida nos consultórios: o TDAH mascara o autismo.

    O TDAH é mais escandaloso. Quem já teve um husky (como eu) vai entener: ele é um husky desgovernado, que te arrasta pela coleira. Ele anda em pêndulo, sempre te deixando sem equilíbrio. Ele cheira tudo, lambe tudo, cheira tudo. Sobe nas pessoas. Faz xixi onde não deve. Cava a grama do vizinho. A pessoa com TDAH esquece compromisso, chega atrasada, fala sem pensar, perde o celular três vezes por semana, troca de hobby a cada 3 dias, manda áudio de oito minutos pra mentora dela porque é mais rápido do que organizar o texto. (Se você se reconheceu nessa última, oi. Tou te vendo. XD)

    O autismo, costuma ser o oposto: é um shih-tzu idoso, que só quer deitar debaixo da coberta e dormir, odeia bagunça e gosta do dono e talvez de mais um outro humano que dá petisco. Ele tem rigidez cognitiva, necessidade de previsibilidade, dificuldade com mudança, hipersensibilidade sensorial, exaustão social, vontade de estar sozinho. Quando você tem os dois ao mesmo tempo, o TDAH ocupa o palco. O autismo fica nos bastidores, fazendo as engrenagens girarem em silêncio.

    E aí entra a parte que muita gente descobre da pior forma possível: você acerta a dose da medicação do TDAH e, em vez de se sentir "finalmente normal", começa a perceber um monte de outras coisas fora do lugar.

    A rigidez cognitiva que você achava que era teimosia. A hipersensibilidade ao som, à luz, ao toque, que você achava que era implicância. A exaustão depois de eventos sociais que você achava que era introversão. A vontade de estar sozinha que parecia falta de bateria. O cansaço de fingir que está tudo bem quando claramente não está, e que você passou a vida inteira chamando de "personalidade".

    Tudo isso sempre esteve ali. Mas não dava para prestar atenção com a quantidade de besteira por segundo que o husky fazia.

    Dois cachorros, duas coleiras

    E foi essa analogia que eu usei com a minha mentorada: imagina passear na rua com dois cachorros ao mesmo tempo. Um husky hipersociável, desgovernado, que quer cheirar tudo e falar com todo mundo. E um shih-tzu idoso que queria estar em casa, debaixo da coberta, longe do barulho.

    Você está ali, segurando duas coleiras, indo pra direções opostas, ao mesmo tempo. E passou anos achando que era contradição interna, falta de caráter, dificuldade de saber o que queria. Vontade de socializar E vontade de sumir. Urgência E paralisia. Intensidade E exaustão. Curiosidade infinita E ataque de pânico sensorial num restaurante mal iluminado.

    Esses conflitos internos são dois sistemas neurológicos operando ao mesmo tempo no mesmo corpo, querendo coisas opostas em ciclos que nem sempre se sincronizam. Quem mora junto comigo já me viu querer ir pra rua às três da tarde e implorar pra ficar em casa às seis. (Como descreveu um amigo: "vocês não são bipolares, vocês são bi-tudo".)

    A parte boa: depois que você identifica os dois cachorros, você consegue saber qual deles está latindo em cada momento. Não dá pra "lidar" no sentido de resolver e nunca mais ter aquele dilema. Mas dá pra negociar.

    Por que mulheres descobrem em camadas

    Tem um padrão que se repete: mulher é diagnosticada com TDAH na vida adulta, geralmente entre os 30 e os 45 anos. Começa a medicar. Seis a doze meses depois, volta ao consultório dizendo "acho que tem mais alguma coisa". E aí, num percentual nada desprezível dos casos, começa o segundo processo diagnóstico, dessa vez para autismo.

    Isso acontece por dois motivos somados.

    O primeiro é o mascaramento social, que a literatura chama de masking. Hull et al (2017) descreveram em detalhes como mulheres autistas desenvolvem, desde a infância, repertórios sofisticados de imitação social. Estudam expressões faciais como quem decora vocabulário. Ensaiam respostas para situações sociais como quem ensaia entrevista de emprego. Aprendem "a ler pessoas" como construto de sobrevivência, geralmente em contextos familiares hostis ou imprevisíveis. O resultado: a apresentação clínica fica diferente da apresentação descrita nos manuais (que foram historicamente construídos com base em meninos), e o autismo passa despercebido. (Lai et al., 2015).

    O segundo é o efeito do TDAH cobrindo o autismo, que descrevi acima. Como o TDAH é a condição mais "barulhenta", ela pode ser a primeira a ser identificada. Nesses casos, o autismo só aparece com nitidez depois que o TDAH é tratado, ou em momentos da vida em que o sistema de mascaramento entra em colapso (burnout autista, mudanças de rotina abruptas, esgotamento por sobrecarga sensorial prolongada).

    Por isso o diagnóstico, quando vem, vem em camadas. Primeiro o TDAH. Depois o autismo. Em alguns casos, antes ainda, vem a superdotação ou altas habilidades, que mascara as duas coisas durante toda a infância porque a criança "compensa" no desempenho cognitivo o que falta no funcionamento executivo e social. (Eu mesma sou esse caso: descobri depois dos 40 que tinha sido identificada como superdotada na infância, e que a minha família sabia. Só não acharam relevante me contar.)

    O que muda na prática

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