Eu divido a atenção para não te interromper
TDAH e altas habilidades: por que dividir a atenção com uma tarefa boba me deixa mais presente numa conversa, e o que a estimulação ótima explica.
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Enquanto você fala, meu cérebro abre quinze abas
Você tá me contando uma coisa importante. Eu tô te olhando nos olhos, quietinha, postura de aluna exemplar. Eu tou GENUINAMENTE interessada. Juro. Só que por dentro é o inferno: lembrei que não respondi aquele áudio, será que tranquei a porta, essa palavra que você usou tem uma etimologia engraçada, nossa que fome, opa perdi a última frase, volta.
O que parece falta de atenção na verdade é o contrário: eu tenho uma "banda" de atenção tão grande que meu cérebro, com a parte que sobrou, foi arrumar serviço por conta própria.
Agora vamos pra outro cenário. Eu tô lavando louça, ou rabiscando um caderno, ou respondendo uma mensagem boba, e você fala exatamente a mesma coisa. E eu escuto tudo. Pego a nuance, lembro do detalhe três dias depois, devolvo a pergunta certa. A diferença entre a versão que está presente no momento e a versão que tá pensando em outras oitenta coisas mora num detalhe idiota: o que eu dei pra minha mão fazer enquanto o ouvido trabalhava. Quanto mais eu me esforço pra focar só em você, pior fica. Mas se eu dividir a atenção com um estímulo de baixo custo cognitivo? Finalmente a coisa flui.
Demorei anos pra entender que a regra que todo mundo repete, "olha pra mim e presta atenção só em mim", era a receita exata do meu fracasso.
A banda ociosa arruma emprego sozinha
Meu combo é TDAH, autismo e altas habilidades, conjunto que a literatura ainda está aprendendo a separar direito (já escrevemos sobre onde o TDAH e a AHSD se sobrepõem e onde se afastam). Na prática, o binômio TDAH-AHSD me entrega uma combinação perigosa: uma velocidade de processamento viciada em trabalho, e um controle de impulso que trabalha meio-período, e ainda faz corpo mole durante o expediente.
Junta as duas e você tem um cérebro que termina a tarefa antes de a tarefa acabar, mesmo contra a sua vontade. Quando alguém fala comigo em ritmo de ser humano normal, existe uma quantidade absurda de capacidade cognitiva minha parada, de braços cruzados, batendo o pé, e essa capacidade ociosa, em vez de esperar educadamente o próximo estímulo chegar, sai sem me pedir autorização e vai abrir todas as abas de alto custo que encontrar pela frente, da lista do mercado à crise existencial das três da tarde.
Sem folga.
A psicologia descreve isso desde os anos 1980, num modelo de nome pouco convidativo: a teoria da estimulação ótima, de Sydney e Thomas Zentall. A ideia é que o cérebro com TDAH opera num estado crônico de subestimulação, e que a inquietação, o mexe-mexe, o distrair são tentativas de subir o próprio nível de ativação até o ponto em que ele finalmente rende (Zentall & Zentall, 1983). Traduzindo: a agitação é a muleta que o cérebro inventou pra funcionar melhor. O contra-senso mora aí, porque pedir pra um cérebro subestimulado focar só numa coisa é baixar ainda mais o estímulo, cavar o buraco em vez de tapar, e é por isso que toda vez que mandam a criança agitada parar de se mexer e prestar atenção estão tirando dela justamente o que a segurava a atenção dela dentro da sala. É um modelo teórico de quarenta anos atrás, e ainda assim explica bem demais a minha vida. Eu nunca consegui prestar atenção numa aula sem cair numa das seguintes opções:
- prestando atenção, mas desenhando furiosamente
- prestando atenção, e interrompendo o professor
- prestando atenção, e respondendo todas as perguntas retóricas (aqui com ajuda do autismo e a falta de noção social)
- quieta, pensando no que eu ia fazer quando chegasse em casa e em mais 30 outras coisas
- quieta, mas imaginando todas as ramificações da matéria, todas as aplicações práticas, e perdendo uns 20min da aula de forma irrecuperável
É por isso que aula do tipo palestrão onde eu não posso fazer nada em paralelo é um meio de tortura pra mim. Toda a banda livre, zero tarefas de baixo custo cognitivo pra ocupar ela, e aí ela vai brincar com o único material disponível, que é a minha imaginação. E essa, minha amiga, acha que quem tem limite é município.
O lado das altas habilidades transforma um pequeno acidente num cataclismo. A teoria das sobre-excitabilidades de Dabrowski descreve, em pessoas com AHSD, uma intensidade psicomotora e intelectual de fábrica, mente e corpo pedindo mais input o tempo todo. É construção clínica ainda em debate, não número fechado, e quem te vender estatística redonda sobre isso muito provavelmente a inventou. Mas o mecanismo bate: capacidade sobrando, caçando o que fazer. É o mesmo cérebro que vive com tudo ligado ao mesmo tempo, agora olhando pra dentro de uma conversa. E desejando uma morte rápida e indolor pra escapar do tédio.
O que a mão faz enquanto o ouvido trabalha
Aqui vem a parte que parece contra-intuitiva e é a mais bem documentada. Em 2010, a psicóloga Jackie Andrade pegou 40 pessoas, botou pra ouvir um recado de telefone entediante e mandou metade rabiscar forminhas no papel enquanto ouvia. Quem rabiscou lembrou 29% mais informação num teste surpresa depois (Andrade, 2010). Era gente comum, sem TDAH nenhum no recorte, e mesmo assim a tarefa boba melhorou a escuta. Tu vê. E eu tomando esporro de professor pela bilionésima vez.
Você dá um mordedor pro cachorro parar de comer o sofá.
Certo? O bichinho tá inquieto, tá com energia sobrando. Se ele não tiver onde gastar, ele vai gastar nos seus móveis. No TDAH adulto a evidência aponta na mesma direção. Um estudo de 2024 da UC Davis mediu a inquietação de adultos com TDAH durante uma tarefa longa de atenção e achou o oposto do senso comum: eles se mexeram mais justamente na hora das respostas certas, e mais ainda conforme a tarefa se arrastava (Son et al., 2024). Ali, o fidget segurava o desempenho de pé quando o tédio batia, em vez de derrubá-lo. É amostra pequena, de adultos já diagnosticados, então serve pra descrever o mecanismo, não pra cravar prevalência. Mas segue batendo com o que acontece quando eu converso com você enquanto estou arrumando a casa.
A tarefa certa é a tarefa burra
A tarefa paralela tem uma regra inegociável pra mim: ela não pode disputar o mesmo canal do que eu tou usando pra prestar atenção em você. Lavar louça, desenhar, andar, dobrar roupa, tudo isso é motor e mecânico, roda num circuito que não briga com o ouvido. Já responder uma mensagem que exige texto pensado, ou ler alguma coisa mais complexa, aí o canal da linguagem lota e eu te perco de novo.
Minha melhor amiga, com os mesmos diagnósticos que eu, é a pessoa que consegue prestar atenção numa palestra e ler um livro de fantasia ao mesmo tempo. Eu acho que o cérebro dela deveria ser estudado.
Então, quando eu tô de mão ocupada
Sobra o problema social, que eu não vou fingir que resolvi. Tem muita gente que lê o meu olhar desviado como desinteresse, e nem sempre dá pra parar a reunião e explicar a teoria da estimulação ótima pro seu chefe enquanto ele decide o seu bônus. Tem contexto em que a acomodação que funciona pra mim é ilegível pra quem tá na minha frente, e essa conta ainda não fecha redonda. Falar disso em público é meio caminho: quanto mais gente souber que existe cérebro que escuta melhor de mão ocupada, menos o nosso rabisco no caderno vira acusação.
Então, da próxima vez que eu estiver desenhando enquanto você fala, ou de costas mexendo na panela, respira.
Eu te juro que aquele é o momento em que eu mais tô presente.
O olho fixo e a postura de aluna exemplar, esses sim, me perdem no meio da segunda frase.
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Saiba maisFontes
Andrade, J. (2010). What does doodling do? Applied Cognitive Psychology, 24(1), 100–106. https://doi.org/10.1002/acp.1561
Son, H. M., Calub, C. A., Fan, B., Dixon, J. F., Rezaei, S., Borden, J., Schweitzer, J. B., & Liu, X. (2024). A quantitative analysis of fidgeting in ADHD and its relation to performance and sustained attention on a cognitive task. Frontiers in Psychiatry, 15, 1394096. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2024.1394096
Zentall, S. S., & Zentall, T. R. (1983). Optimal stimulation: A model of disordered activity and performance in normal and deviant children. Psychological Bulletin, 94(3), 446–471. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6657825/
