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    Tecnologia é onde eu gasto o meu dinheiro. Descubra onde ela se paga.

    Transcrever reunião, aula ou consulta médica: o que eu pago, quanto custa e o que dá pra fazer de graça com Whisper, legendas do sistema e planos gratuitos.

    Andressa ChiaraAndressa Chiara
    19 de agosto de 2026

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    Você saiu da reunião com a página cheia e a cabeça vazia

    A reunião durou cinquenta minutos. Você anotou tudo, ou quase tudo, com aquela letra que vai piorando conforme a pessoa fala mais rápido. No fim, você não conseguiu participar direito, outras pessoas atuaram e negociaram de forma brilhante. Suas anotações cobrem duas páginas.

    Três dias depois alguém pergunta o que ficou decidido sobre o fornecedor, e você olha as duas páginas sem reconhecer nada ali. Está tudo escrito. Você escreveu. E mesmo assim a informação não está na sua cabeça, ela está só no papel, como se outra pessoa tivesse ido àquela reunião no seu lugar.

    Aí vem a explicação de sempre, que você mesma se dá: falta de atenção.

    Não é.

    Eu tinha uma memória boa, mas quanto mais contexto, mais insano é lembrar de tudo. Além disso, a maioria das pessoas tem que escolher: ou você anota as coisas de forma decente, ou você participa do que está acontecendo. Pode ser uma reunião, uma consulta médica, o que for.

    Eu atuo em tecnologia. Tem gente que gasta dinheiro em sapato, em carro, em decoração... Eu gasto com ferramentas tecnológicas para reduzir meu esforço e manter minha sanidade mental. Mas eu sei que eu não sou todo mundo.

    Por isso, este artigo tem duas partes. A primeira é sobre as ferramentas que eu pago para ter menos esforço cerebral. A segunda é o que eu usaria amanhã se esse dinheiro não existisse.

    A bancada é pequena, e você colocou duas coisas nela

    Pensa na memória de trabalho como uma bancada de cozinha bem estreita. Cabe pouca coisa em cima ao mesmo tempo, e o que não cabe fica no chão, esperando.

    Acompanhar uma conversa já ocupa a bancada quase inteira: você está processando o que a pessoa fala, guardando o que ela falou antes, formulando o que vai responder, e monitorando quando é a sua vez. Quando você começa a anotar, você não adicionou uma tarefa leve ao lado das outras. Você colocou na bancada uma segunda atividade que exige seleção, compressão e produção escrita, e alguma coisa teve que ir pro chão pra caber.

    Anne Piolat, Thierry Olive e Ronald Kellogg mediram isso em 2005 e a conclusão é que anotar durante uma exposição consome mais recursos cognitivos do que ler ou do que simplesmente aprender ouvindo, ficando na mesma faixa da produção de texto propriamente dita. Traduzindo: anotar não é o apoio à escuta, é uma segunda tarefa competindo com ela.

    Claro, se você está ouvindo uma palestra e só tem que anotar, beleza. Mas se você precisa interagir, a realidade é que a qualidade de uma das duas coisas vai sofrer.

    Some a isso a conta que a gente já paga por fora. Se você é autista e está mascarando, uma fatia fixa da bancada passou a reunião inteira ocupada em monitorar a própria expressão facial, calibrar o tom de voz, calcular o momento certo de entrar na conversa e conferir se a última coisa que você disse soou estranha, e nada disso libera espaço quando a reunião acaba, porque o monitoramento roda o tempo todo. Laura Hull e colegas descreveram esse trabalho em 2017 a partir do relato de adultos autistas, e o nome que ficou foi camuflagem social. Se você tem TDAH, some outra coisa: Russell Barkley, possivelmente o pesquisador mais citado em TDAH no mundo, coloca a memória de trabalho no centro do quadro, o que significa que a bancada já era menor antes de alguém abrir a boca.

    Enquanto isso, a pessoa do lado não anota nada, interage, consegue seus objetivos, e você tá aí, se sentindo uma bosta.

    E antes que alguém venha discutir: em 2014 saiu um estudo famosíssimo dizendo que a lentidão da mão obrigava você a resumir em vez de transcrever, e aquilo virou meme de produtividade. Em 2019, Kayla Morehead, John Dunlosky e Katherine Rawson tentaram replicar, com dois experimentos e um grupo que não anotava nada, e o desempenho não diferiu de forma consistente entre os grupos. A base pra te mandarem largar o teclado é mais frágil do que o conselho sugere.

    Tecnologia é onde eu gasto o meu dinheiro

    Tem gente que gasta com sapato, com vinho, com viagem, com carro. Eu gasto com tecnologia, e não é só hobby: é a minha área de atuação, então as mesmas assinaturas de aplicativo que resolvem a minha reunião também são as que eu uso para jogar minhas ideias, guardar as informações da minha consulta médica e até fazer DR familiar. Vamos a elas.

    Tactiq. Roda como extensão do Chrome e não entra na chamada como participante, o que evita o constrangimento do robô aparecendo na lista de convidados. O plano Pro sai por R$ 26,17 por mês na cobrança anual, com transcrições ilimitadas e 10 créditos de IA por mês. Eu pago porque tenho reunião demais pro plano gratuito, e volto no plano gratuito daqui a pouco, porque ele também é bom.

    Plaud. É um aparelho + aplicativo, e é ele que resolve o presencial, que é justamente onde extensão de navegador não alcança. O plano Starter é gratuito e dá 300 minutos de transcrição por mês, o que já cobre bastante coisa. O Pro custa US$ 8,33 por mês na cobrança anual, com 1.200 minutos, e o Ilimitado sai por US$ 19,99 por mês na anual. O aparelho tem custo próprio, separado da assinatura, e varia por modelo.

    Claude (e Hermes). Meus xodós. São assinaturas de inteligência artifical para transformar todas as transcrições (e tudo mais que acontece na minha vida) em informação útil e execução de atividades braçais. Se tiver que preencher formulário, se tiver que verificar alguma coisa periodicamente, se tiver que organizar minha agenda ou descobrir quais são as datas e a matéria de cada prova, eu não vou gastar um neurônio para isso. Elas fazem tudo. Dá para ter uma versão funcional de qualquer um dos dois a partir de aproximadamente R$110 por mês, apesar de, zero surpresa, a minha assinatura ser o modelo mais caro para dar conta das duas toneladas de trabalho que eu jogo nelas todo dia.

    O que eu usaria se esse dinheiro não existisse

    No artigo sobre por que reuniões destroem a gente, eu escrevi que uso Tactiq e Plaud, e completei dizendo que existe uma penca de soluções gratuitas que você pode usar. Aí terminei o parágrafo, passei pro assunto seguinte, meu TDAH me levou sei lá pra onde e nunca listei uma sequer, o que é particularmente irônico num artigo sobre memória de trabalho.

    Segue a lista, com um aviso: eu testei quatro das opções abaixo e vou marcar quais não testei.

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