Fatiar e priorizar: a técnica de produto para quem tem TDAH
Fatiar e priorizar com TDAH: a técnica de gestão de produto para quem trabalha demais, vive no modo incêndio e não consegue escolher o que fica de fora.
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Terça, 23h40, e a lista só cresce
Você fez catorze coisas hoje. Respondeu cliente, refez a planilha que ninguém pediu para refazer, teve duas ideias de negócio novas (uma delas boa, você jura), resolveu um pepino do seu sócio e ainda começou um curso. São 23h40 e a única tarefa que ia de fato mudar o seu mês continua lá, intocada, com o prazo vencendo na sexta.
Você vai fazer na quinta, de madrugada. Como sempre.
E vai entregar, porque você sempre entrega. O problema é o que a entrega custa: o sono, a paciência com quem mora com você, a sensação permanente de que a cabeça é um chefe que nunca deixa você bater o ponto. Se você tem TDAH, altas habilidades ou as duas coisas, é bem provável que esse ritmo tenha funcionado por anos. Funcionou tão bem que virou identidade: você é a pessoa que dá conta.
Só que dar conta de tudo tem um efeito colateral meio invisível. Quando você faz tudo, você nunca precisa escolher. E escolher o que fica de fora é justamente a habilidade da qual nossa saúde depende.
Eu trabalho com gestão de produto tem décadas, e escrevi dois livros sobre o assunto. Em produto, esse padrão tem um diagnóstico velho conhecido: o time trabalha muito, entrega pouco do que importa e jura que está ocupado demais, e que este é o problema.
Não é.
O problema é que o time está faseando e não fatiando.
Fasear é pegar um projeto gigante e dividir em etapas que só têm valor quando todas estiverem prontas. Fatiar é outra coisa. No Testando hipóteses eu defini assim: fatiamento é o ato de transformar uma grande entrega de valor em várias entregas menores, sempre priorizando o maior valor com o menor esforço possível, para gerar aprendizado mais rápido. Nós, neurodivergentes, temos o hábito de pensar em tuuuuudo que é possível, e a gente quer fazer todas as etapinhas, e quer que fique perfeito. A gente gera dopamina só de montar o plano, e falha miseravelmente na hora de executar. Quando o prazo aperta a gente vê que tudo andou um pouco, nada ficou pronto, e a coisa que importava ficou para a madrugada de quinta, onde a ignição por incêndio resolve o que o método não resolveu.
A ciência ajuda a entender por que o cérebro prefere o catorze ao um. Em 2018, Meng Zhu, Yang Yang e Christopher Hsee publicaram no Journal of Consumer Research cinco experimentos mostrando o que eles chamaram de efeito da mera urgência: as pessoas escolhem tarefas urgentes e sem importância, com recompensa objetivamente menor, no lugar de tarefas importantes com recompensa maior, mesmo quando a urgência não muda nada no resultado. Isso vale para qualquer cérebro. No TDAH a balança já chega torta. O psicólogo Russell Barkley propôs em 1997, na Psychological Bulletin, um modelo que descreve o transtorno como uma falha de inibição que arrasta junto a memória de trabalho e a regulação da própria motivação. Traduzindo: o urgente grita mais alto, e o seu freio de mão para o grito é mais fraco.
O que parece falha de caráter é problema de gestão, e gestão tem técnica pra resolver.
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